Epifanisses

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sábado, 21 de fevereiro de 2015

(Ím) Par

             De uns tempos pra cá, tenho procurado observar as constantes da minha existência. Ouvi dizer que faz parte da crise setenária que eu teoricamente me encontro, àquela que se dá aos vinte e poucos anos, momento o qual você já tem certa bagagem emocional e é capaz de olhar pra trás e analisar passagens da sua vida com a maturidade necessária pra entender aonde acertou e aonde cometeu erros. O mais engraçado é que quando paramos pra analisar o que deu errado, geralmente percebemos as nossas constantes: aquilo que se repete e repete em nossas ações, que levam à um mesmo ponto e que geralmente nos fazem andar em círculos. Elas são quase como manias comportamentais. E foi nessa reescrita mental de memórias que andei percebendo várias dessas constantes em mim mesma e quais eu não queria de jeito nenhum que se repetissem daqui pra frente. 
               Uma delas vem martelando na minha cabeça há meses e talvez não seja tão particular assim: já parou pra pensar em quanto tempo e energia doamos ao dar chances a algumas pessoas por acreditarmos verdadeiramente que elas são as certas? Antes que venha à cabeça o clichê "me iludir pela pessoa errada" já faço questão de avisar que não é disso que se trata (pelo menos, não desta vez). Estou falando daquelas pessoas que são realmente boas, honestas, espirituosas, compreensíveis, sensatas...  E aí, por elas possuírem um conjunto de qualidades que acreditamos ser certas, tendemos a achar que elas serão nosso par perfeito. E insistimos em construir essa perfeição na nossa cabeça por meses e meses... O problema é que um dia as atitudes dessas pessoas para com você começam a não corresponder com as atitudes que elas demonstram ter individualmente. E você bate a cabeça na parede e se decepciona muitas vezes, dezenas delas até, achando que você acreditou em alguém que nunca existiu ou que se mostrou falsa com o tempo quando na verdade não é essa a questão.
                E aí, um dia você percebe essa constante e cresce. Descobre que, de fato, essas pessoas são muito boas, honestas, espirituosas, compreensíveis, sensatas... Mas sozinhas! Ou pelo menos, não com você. E isso se dá por um motivo bem simples: elas não gostam de você da mesma maneira que você gostaria que gostassem. E quando a gente não gosta, não adianta. Nem a pessoa mais repleta de virtudes do mundo vai conseguir não te fazer mal, mesmo que sem perceber, porque, no fundo, ela não corresponde à sua expectativa. E isso não as faz serem indivíduos menos bons.
            Crescer é isso. É não aceitar mais ser vítima dos clichês da vida, mas sim insistir em entender porque eles viraram tão comuns na sua história. É saber que desejar que determinada pessoa seja aquela "certa" pra você não fará com que ela realmente seja. É perceber que alguém ser um bom ímpar não necessariamente faz com que seja um bom par pra você e com você, e insistir no contrário, meu caro, é puro gasto de energia. 

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Implicações


“Se tem uma coisa que eu sei com propriedade de causa é ser solteira. Ainda bem.” – Foi o que me passou pela cabeça ao ver uma amiga que acabou de terminar um namoro de cinco anos cobrando explicações (que talvez uma esposa cobraria de um marido) de um completo estranho que ela nem sequer teve nada. Se relacionamento traz maturidade e experiência, ser solteiro traz muito mais. Ao invés de aprender com uma pessoa certa, você aprende com várias erradas. E viver alguns relacionamentos que não deram em nada traz bagagem também. Ficamos mais céticos? Com certeza, mas pelo menos aprendemos a não nos doar em vão, não esperar nada de pessoas que sabemos que não vão levar a nada além daquilo que elas mostram. Aprendemos também a identificar exatamente quando um novo relacionamento caminha na mesma trajetória dos tantos outros que foram tão pouco. As pessoas têm sido tão pouco umas com as outras ultimamente.
Uma das questões que se torna essencial pra perceber um relacionamento é o quanto a pessoa se implica por você. E esse é um mal estar geral que assola a minha geração. As pessoas não se implicam mais umas pelas outras. E o que seria se implicar por alguém? Incluir realmente essa pessoa na sua vida. Saber que você tem mil coisas pra fazer nas atribulações do dia a dia, mas automaticamente arranjar um tempo pra colocar a pessoa nesse cotidiano. Mas se implicar por alguém não é tão somente deixar a pessoa fazer parte da sua rotina, e sim permitir que ela entre em sua vida. E isso é missão difícil. De nada adianta incluir alguém em sua rotina, mas quando sair dela esquecer totalmente que esse alguém existe. Afinal, se relacionar vai muito além disso. Colocar alguém em suas atividades diárias todo mundo consegue, é fácil: eu acordo todos os dias às oito da manhã, vou trabalhar, almoço às treze, escovo os dentes, vou estudar, vou pra academia, volto, durmo, acordo de novo. Às segundas tenho inglês, às quartas tenho pilates, às sextas saio com você. Difícil mesmo é pensar em uma maneira de colocar a pessoa em sua vida, isso inclui se relacionar com seus amigos, com sua família, com seu estilo de vida fora da rotina, nas suas viagens, nos seus planos.
Além da falta de implicação entre as pessoas, outra característica bem típica desse mal estar coletivo é a falta de coerência entre palavras e atitudes. Esse sim é um fator crucial para definir os rumos de qualquer relação e entendê-lo requer maturidade: o quanto o que uma pessoa faz por você corresponde com o que ela fala pra você?! Afinal, fácil é dizer que sente saudades”, difícil é driblar os contratempos pra ir matá-la. Fácil é falar “vamos nos ver”, difícil é, frente aos dias tão cheios de coisas para fazer, abrir mão de alguma delas e conseguir um espaço. “Conta comigo” é tão fácil perto de realmente fazer a diferença e ajudar. E “eu te amo”? Ah, se conseguíssemos dar conta de metade das coisas que falamos, amar estaria subentendido e provado.
E como fazer com que alguém se implique por você? Não há fórmula mágica, receita de bolo ou mapa. Mas o que tenho concluído é que você deve se implicar por esse alguém. Deve, como diz a mãe de uma amiga, mostrar a que veio. Mostrar quando algo te incomoda, mostrar quando você se sente inseguro e quando fica confuso. Se fazer claro sem cobranças. Afinal, quando você precisa cobrar algo de alguém já demonstra o quão desigual está ocorrendo essa implicação entre vocês.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Descomplique, classifique


Os que me conhecem, sabem: tenho pavor de tudo aquilo que escapa do meu conjunto nada modesto de explicações.  E quando isso acontece, sempre tento encontrar uma nova interpretação. Me desequilibra não ter a mínima noção de onde eu estou pisando. Estar fora do controle me tira do eixo. E foi na tentativa de diminuir esse descontrole irritante (porém totalmente comum em nossas vidas já que lidamos com seres humanos) que comecei a classificar os relacionamentos atuais, ou melhor, a pessoas com as quais nos relacionamos em três tipos. Ouso dizer que isso não tem falhado nos últimos tempos, e quando falo de falha me refiro à  sofrimento desnecessário e desgaste de energia. Crescer é isso, é saber que o nosso tempo e energia são valiosos demais para empenharmos em situações (e pessoas) dispensáveis. Quando a gente coloca a racionalidade em primeiro plano fica mais fácil não se deixar levar. Nesse meu momento-raro-racional, classifiquei as pessoas em três tipos: as que gostamos, as que não gostamos e as que só não gostamos porque não podemos gostar.
O primeiro tipo deveria ser o mais fácil de se falar sobre, mas devo confessar que demorei horas pra escrever essa definição. Acho que o motivo é simples: foi o menos presente na minha vida até hoje. Esse tipo está relacionado às pessoas que nos trazem a sensação de pisar em nuvens, as que pensamos quando ouvimos determinadas músicas, as que por mais cansados que possamos estar, pensamos ao irmos dormir.
O segundo refere-se as pessoas que não gostamos. Aquelas que não tem jeito, por mais que tentemos sentir alguma coisa (porque, em grande parte das vezes, essas pessoas são até muito legais) não conseguimos. Elas não possuem aquele poder mágico de nos fazer sentir borboletas na barriga e taquicardia. Ao meu ver, esse tipo pode ser muito mais perigoso do que o primeiro. Temos que ter cuidado redobrado para não as machucar, principalmente se essas pessoas nos consideram a primeira categoria que coloquei.
Por fim, a última classe de pessoas: as que não gostamos única e exclusivamente porque não podemos gostar. E esse tipo 3 só vai me entender quem já viveu um tipo 1 que te considerava um tipo 2. Ou seja, só quem por muitas vezes já gostou de alguém e não foi correspondido tem maturidade pra entender esse tipo tão delicado que se refere às pessoas que se nos dessem motivos, chances e demonstrações seriamos completamente apaixonados. Aquela pessoa que pensamos antes de dormir: “Eu poderia ser louco por ela” – mas como ela não se mostra tão louca assim por nós, acabamos deixando por isso mesmo.
Talvez essa minha taxonomia pessoal e particular gere algumas discordâncias mas minha palavra de ordem é: descomplique. Gosta de quem gosta de você? Bênção. Gosta de quem não gosta de você? Perda de tempo. Não gosta de quem gosta de você? Cautela. Não gosta mas poderia gostar muito se houvesse reciprocidade? Incógnita!
(Quando alguém esclarecer essa questão, não deixe de me enviar a resposta ou sugestão de como proceder.)

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Sobre indícios e frustrações


        Às vezes, a gente pergunta pra nós mesmos quais são os indícios de que um relacionamento está prosperando. E quando falo em prosperar significa se intensificar, portanto, nem estagnar e nem regredir. Aquela certeza de que as coisas só vem melhorando e crescendo com o passar do tempo e do envolvimento. Nos últimos tempos, tenho perguntado isso a mim mesma constantemente e como é quase  impossível determinar as características de que a coisa esteja dando certo, resolvi me ater aos sinais que indicam que talvez a evolução da maneira que estamos querendo não exista (pelo menos, não a curto prazo). Quem gosta sente pressa.
            Um deles é aquele típico pensamento “a pessoa quando está comigo é uma coisa mas quando está longe é totalmente diferente”. Quando está ao nosso lado, está no céu, mas quando não está ficamos com a sensação de que ela está em (outra) órbita. Isso é possível ou deveríamos encarar como distúrbio de personalidade? Essa é uma daquelas perguntas que felizmente eu encontrei a resposta: é muito possível. E arrisco: ela não é outra, é exatamente a mesma pessoa. O fato é que ela pode estar muito bem ao seu lado, mas estar bem da mesma forma quando não está com você. Nesse caso, estar bem seria se sentir  completo. Freud explica: para haver desenvolvimento é preciso ter falta. Então, provavelmente uma pessoa que passa um final de semana inteiro ao teu lado e no domingo à noite e manda uma mensagem de “boa semana” está bem com você mas está bem também sem você , logo, não sente tanto a sua falta assim. Essa é a hora que a gente tem que ser maduro o suficiente pra entender  que o “boa semana” que levamos não é o “até amanhã” que gostaríamos que fosse.
            O outro sinal é o excesso de explicação para coisas que não são passíveis dela. Coisas que não precisam ser ditas, explicadas e conversadas porque a gente simplesmente sente. E ao pararmos para tentar explicar não tem o mesmo efeito. O sentimento e a importância que alguém nos dá se comprova única e exclusivamente nas atitudes deste para conosco e toda tentativa de conversa sobre o assunto torna-se frustrante porque ao final dela, ficamos com aquela sensação de que ouvimos o que gostaríamos de ouvir, mas não escutamos. Escutar vem da alma. 
A incoerência está nessa busca frustrante de muitas razões. Ao pararmos pra procurar motivos para provar que algo esteja dando certo da maneira que idealizamos já é uma grande prova de que não está. Quando um relacionamento está dando muito certo, a última coisa que temos é tempo pra pensar nos porquês disso. No fundo, sabemos muito bem que o tempo pára quando isso acontece.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Entre meditações e edições


 “Depois de muito meditar, resolvi editar tudo que o coração me ditar.” 

 

Agradeci Leminski em pensamento por me proporcionar em forma de poema um sopro inicial pros meus desabafos. Ando tão saturada de ouvir as mesmas perguntas sobre as mesmas situações que decidi tentar respondê-las da melhor maneira que eu encontro: escrevendo. “Você não cansa de estar sozinha? Não namora porque não quer ou porque não te querem?”        
O termo estar sozinho é em si mesmo muito complexo. Estar sozinho pode significar estar muito mais bem acompanhado do que podemos imaginar. Foi na solidão que eu encontrei maturidade pra formar meus pensamentos, pra traçar meus planos, escrever meus textos, ler quantos livros eu quisesse em uma noite inteira. Portanto, não, eu não canso de estar sozinha porque foi estando assim que eu encontrei a minha melhor companhia: eu mesma. O que me fez muito mais seletiva do que antes. Melhor do que ser escolhida por alguém é poder escolher a pessoa certa.
Apreciar a solidão não significa não querer ter uma pessoa do nosso lado. Afinal, é impossível ser feliz sozinho. Alegria dividida é muito mais prazerosa e até a felicidade fica mais feliz à dois. Porém, não devemos nos enganar achando que só ter alguém pra chamar de nosso vai nos trazer plenitude. E aí eu aproveito pra responder a segunda indagação mais chata que tenho ouvido nos últimos tempos. Não namoro porque não estou em busca de um rótulo, eu quero muito mais que isso e mereço muito mais também. O que eu anseio é estabilidade emocional pra compartilhar.
A solidão além de nos tornar seletivos, nos proporciona uma certa aversão a um tipo de relacionamento que tem se tornado o mais popular dessa geração: o relacionamento instantâneo. A moda é gostar e desgostar, se importar e não dar a mínima em tempos recordes. Coisa de uma semana, um mês no máximo. Aí eu questiono: se for pra estar com alguém que te leva flores com um cartão cheio de declarações em um dia e no outro seguinte não te liga e não te procura (e hoje em dia sabemos muito bem que só não procura quem não quer), não é muito mais vantajoso emocionalmente estar sozinho?
Considerando que não temos bolas de cristais suficientes no mercado pra dar conta de responder à todas essas inconstâncias que as pessoas vivem e pior, nos metem a viver também, só vejo dois remédios pra curar esse mal instaurado nos relacionamentos atuais: tempo e sinceridade. Tempo porque nada sólido se constrói com pressa, tudo requer tempo pra ganhar forma e não seria diferente em um relacionamento. E sinceridade porque infelizmente não podemos adivinhar o que se passa com o outro se muitas vezes nem ele mesmo sabe o que acontece. Sinceridade é o sentimento mais responsável que podemos ter para com o outro. O coração me ditou, eu editei: chega de efemeridade.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Releitura Perigosa


Best-sellers sempre me instigam. Não sou uma daquelas leitoras restritas à um mesmo tipo de livro. Crítica talvez, mas aberta à toda nova experiência literária. É o que me ocorre com os tais best-sellers, mais especificamente os romances épicos. Ouço falar de um livro por algumas amigas, posso até resistir, o vejo em primeiro lugar na prateleira da livraria, começo a pensar em ler, mas devo sinceridade: pessoas lendo o mesmo livro no metrô – veredito final.
Vamos ler esse tal “sucesso de vendas que mais de um bilhão de pessoas leram” afinal leitores devorando uma mesma obra totalmente concentrados em um trem pequeno e em movimento e o pior, lotado de gente, penso: alguma coisa interessante este livro deve ter. E foi lendo títulos como a saga Crepúsculo e 50 Tons de Cinza que comecei a me perguntar: o que esses livros que atingem pessoas mais distintas entre si tem de interessante? O que eles tem em comum?
Ambos são o que eu defino como A Bela e a Fera moderno. (Isso mesmo, aquele clássico Disney em que a Fera, uma criatura amarga e desprovida de qualquer sentimento se transforma em um príncipe quando se apaixona pela Bela. Nem preciso dizer que eles vivem felizes para sempre.) A mesma velha história em uma releitura que cabe como uma luva pra mulher atual. Afinal, em tempos de (quase) igualdade entre os gêneros, o livro fornece à leitora o que toda mulher deseja: transformar um cara impossível em namorado, noivo, marido... Afinal, qual a graça em ter o bonzinho se conquistar o vilão e fazê-lo herói é muito mais interessante? Esse é o modelo de homem que as mulheres contemporâneas andam procurando em todo o canto.  
Mas será que esse tipo de história está para além dos livros? É possível modificar totalmente as atitudes de uma pessoa fazendo ela se apaixonar por você ou isso é apenas ilusão romântica? Será que as mulheres em geral deveriam buscar um outro tipo de homem?
É no meio de tantos questionamentos que faço uma confissão: demorei meses para concluir esta crônica e o motivo foi não conseguir definir qual seria um tipo de homem digno de best seller. Esta ideia veio se alterando conforme o tempo e as vivências, pessoais ou não, aconteciam e só consegui ter certeza de uma coisa: tentar modificar alguém além de egocentrismo é pura ingenuidade. As pessoas encontram-se em níveis diferentes de evolução. Infelizmente, esse é um modelo de relacionamento que só dá certo em livros e tentar reproduzí-lo na vida real pode gerar um grande desapontamento. 
 E qual seria o tipo de homem que deveria fazer sucesso nos grandes títulos da literatura? Talvez não haja um modelo perfeito comum. Provavelmente, eu tenha um tipo e você tenha outro ou até mesmo tipos nem existam, porque na vida real a gente encontra a felicidade no que está além das categorizações, escondido, e que, de repente, aparece e a gente simplesmente ama sem precisar mudar nada. Ama do jeito que é.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Eu sou(tro)


De uns tempos pra cá, ando amante da poesia. Me encanta o fato dos poemas serem tão atemporais. Às vezes, me pego refletindo sobre uma vida inteira em um único verso, e quando vou ver o poema foi escrito há muitas décadas. Me instiga. É o que sempre acontece quando estou na companhia de Cecília Meireles, que tem o dom de me remeter a paradigmas tão atuais que caem no meu colo. E foi o que aconteceu quando eu li:
  “De tanto querer ser boa, misturei o céu com a terra, e por uma coisa à-toa levei meus anjos à guerra.”
Estamos recrutando um exército de anjos quando o assunto é agradar o outro. Mudamos de cabelo, de roupa, de atitudes, de emprego, de casa, de carro, de postura... Estamos mudando de alma? Em uma sociedade em que a competição é valorizada, competir com nós mesmos tem se tornado um fato que passa desapercebido quando não deveria. Na verdade, é assustador.
Não adianta falar que não vivemos para agradar pessoas e seria até mesmo hipocrisia, porque fazemos isso, sim, e muito! A aceitação do outro é importante, nos vemos pelo outro e por ele constituímos quem somos também. Porém, em tempo real, a questão que se coloca para mim é: até que ponto essa aceitação é válida?
Isso fica bem claro quando, por inúmeras vezes, deixamos de falar o que pensamos e como nos sentimos com medo do que o outro irá pensar, se o que pensamos vai agradar ou não. Acabamos por medir nossas palavras à procura de preservar uma imagem que na verdade não nos representa, e sim, é um mero reflexo do que o outro vai gostar que sejamos. A representação do desejo de outra pessoa.
Estamos deixando de ser nós mesmos para ser um modelo perfeito para o outro. É esse o tipo de relação saudável que queremos pras nossas vidas? Estamos modificando nossa personalidade, nos perdendo, nos dissolvendo em padrões de aceitação. Caminhar por essa tênue linha entre o que pensam de mim e o quão distante eu vou ficando de mim mesmo na tentativa de tornar essa impressão a melhor possível, parece tarefa que nem anos e anos de terapia irão decifrar (e não devem).
Icke já dizia que "a maior prisão que as pessoas vivem é o medo do que as outras pessoas pensam". Mas o que ele não nos contou foi onde podemos encontrar a chave desta prisão. Talvez esta chave esteja na própria recuperação da identidade, da personalidade própria que orienta nossas ações, que os signos explicam. Aquilo que não pode e nem deve ser modificado em nós mesmos, porque é na nossa essência que encontramos o equilíbrio e a força para sermos exatamente quem somos.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Meu pragmatismo e seus dilemas


Se tem uma coisa que eu aprendi com pessoas que não agregaram algo de bom em minha vida foi não perder tempo com esse tipo de gente. Talvez soe como amargura, mas que fique claro: eu não estou criticando essas pessoas, apenas dizendo que elas não agregaram nada simplesmente por estarem em momentos diferentes do meu, ou seja, o que aconteceu foi um conflito de interesses e de vontades no relacionamento. Me decepcionei? Algumas vezes. Decepcionei alguém? Infelizmente.
Percebo que estou em um momento de valorização do meu relógio natural, acho que isso é o que tende a acontecer quando a gente amadurece, cresce e nosso tempo para certas coisas começa a ficar cada vez mais contado e restrito. E é aí que me indago: temos tempo a perder?
E nessa conclusão impaciente que me é muito peculiar, penso se é válida a honestidade de fazer uma simples pergunta para a outra pessoa quando seu coração já pede alguns esclarecimentos: estamos matando tempo ou construindo tempo juntos? No momento em que me encontro, não estou mais querendo matá-lo com pessoas e situações que talvez não levem a lugar algum, muito pelo contrário, estou querendo solidificar relações e utilizar o pouco tempo que me sobra em favor disso.
Porém, como saber se essa sinceridade também não vai gerar uma conclusão impaciente no outro? Em muitos momentos, eu quero gritar minha necessidade de definições, mesmo que mínimas, por já ser uma mulher que clama por seriedade e comprometimento, mas meu lado menina me cala por pensar no tipo de reação que minha transparência pode gerar. Assustar ou querer apressar as coisas não é nem nunca foi minha intenção.
“Que não tenhamos pressa, mas que não percamos tempo.” Saramago define perfeitamente meu estado de espírito. Não quero me precipitar, mas tenho necessidade de saber onde eu piso. Eu quero o "estar junto" por inteiro, aquele de corpo e alma, aquele que infelizmente já não me recordo mais como é.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Pra você


Coisas e coisas me passam pela cabeça. Algumas vêm de situações vividas e outras de situações impostas pela vida. Entre essas e outras, algo me instiga: um sentimento acaba ou se transforma? Será que é possível se tornar amigo de alguém que um dia já foi um grande amor ou é pura perda de tempo?
Foi em tentar responder essa questão experimentando que falhei. A resposta que fica pra mim, pelo menos, é que sim, é possível um grande amor se transformar em amizade.  Sentimentos não morrem, eles se reciclam, mas para haver amizade é necessário que a reciclagem seja feita por ambas as partes. Caso contrário, essa sentimento transformado sempre vai parecer segunda intenção ou tentativa de resgate de uma coisa que já não existe mais.
Se o “ser amigo” não estiver acontecendo é porque em alguma das partes envolvidas o processo de transformação não foi feito e não é algo para se julgar. Os seres humanos têm tempos de processamento diferentes uns dos outros, e, ao mesmo tempo, isso não quer dizer que tal pessoa te ame ainda como amou um dia, talvez ela só não tenha conseguido libertar o sentimento a ponto de transformá-lo em amizade. O que importa é não haver engano.
Aquela pessoa que você achou que era o amor da sua vida e não deu certo não deve ser excluída permanentemente do seu cotidiano, a menos que ela tenha dado bons motivos para isso. Ela ainda pode ser “da sua vida” de uma forma diferente, até porque... (Será que se eu escrever que acredito em várias reciclagens ao longo da existência eu vou estar parecendo alimentar esperanças  em mim mesma ou querendo dizer algo que na verdade eu nem pensei? )
Fato é que pensar nisso me remete a certas situações e é aí que me vem à cabeça, praticamente como um recado um tanto quanto pessoal: você acha mesmo que depois de tantas noites sem dormir pensando, tantos momentos pra guardar pra sempre e tanta certeza de amor pra vida toda,  o único sentimento que eu sou capaz de criar por você é a indiferença? Porque eu não acredito na possibilidade de você nutrir este sentimento em relação a mim.


terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Sobre borboletas e náuseas

           "Se não lhe der sossego: não é amor, é apego." Ouvi isso da minha melhor amiga recentemente e comecei a pensar no quanto as coisas seriam mais fáceis se a gente soubesse diferenciar um sentimento do outro, em como a gente se iludiria menos e talvez sofreria menos se desde o princípio de um relacionamento fosse possível separar amor de apego. Percebi então que só quem amou de verdade pode parar pra fazer essa distinção e quando se começa, as coisas ficam tão (ou não) mais fáceis.
          É teoricamente simples. Preto no Branco. Apego é aquilo que vem e não te permite pisar no chão da realidade, apego é aquilo que te dá nó na garganta, é quando você não consegue encontrar motivo nenhum pra estar com alguém que não seja o "eu preciso estar". É o que te faz deitar no travesseiro sem conseguir conjecturar um futuro por simplesmente faltar bons estímulos à imaginação, é o que te leva a tentar arranjar desculpas e histórias que justifiquem todas as frustrações ou lacunas que a outra pessoa te traz. É viver uma montanha russa de emoções baratas ao invés de solidificar um caminho de plenitude. O barato sai caro. Você tenta provar que ama em dobro porque faltam motivos pra você acreditar na reciprocidade desse sentimento.
          E amor? Amor é o que se passa quando existe "nós". Infelizmente, o que anda acontecendo é a existência de muitos "eus", "elas", "vocês", "eles", "os", "as" e a carência de "nós". Falar de amor é falar do que dá certo, do que traz equilíbrio, do que se divide e soma, do que se complementa e suplementa. De quando nenhum obstáculo, seja ele geográfico, emocional, físico, pessoal impede duas pessoas de se unirem para serem "nós", para construírem objetivos comuns.
         Talvez esse texto fale sobre muitas coisas que passam ao mesmo tempo para mim, talvez nem eu mesma consiga tirar do papel essa diferenciação, mas o que eu tenho como fato é que amor não te traz náuseas, apego sim. Amor traz frio na barriga. Enquanto eu não encontro as respostas pras minhas próprias questões das quais eu discurso tão bem sobre no infinitivo, incógnitas permeiam meu pensamento: será que um dia eu e você seremos "nós" ou eu ando confundindo náuseas com um turbilhão de borboletas?

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Sobre você: minhas expectativas e frustrações



Há quem diga que excesso de expectativa é o caminho mais curto para a frustração ou ainda afirme o clichê “sem expectativas, sem decepções”. Tenho que confessar as muitas vezes que eu mesma usei essas frases prontas tentando provar para mim mesma que eu não estava colocando uma carga de energia muito grande em certas pessoas ou situações quando muitas vezes estava. Agora me encontro em pensamento contrário: arrisco dizer que ilusão é infantilidade, mas expectativa colocada sobre algo é inerente à nossa condição.
A expectativa sobre alguém nasce de atitudes do cotidiano, de gestos simples como um elogio, um convite pra almoçar, um olhar intenso, uma troca de sintonias. E quando, de repente, essa expectativa vira frustração: tenho eu culpa de criá-la baseada em fatos vividos e me decepcionar repentinamente? Talvez, em partes, relativamente.... Mas o fato é que para se criar uma expectativa sobre alguém é necessário este mesmo alguém estar do outro lado dando suporte para essa criação.
Ninguém acredita em outra pessoa à toa, ninguém faz planos conjuntos sozinho. Eu posso estar errada em criar essa expectação mas tem outra pessoa que precisa entender sua considerável participação por possibilitar estes pensamentos em mim. Isso é crescer. É um pouco sobre aquilo de se tornar eternamente responsável por aquilo que cativa. Se eu criei expectativa e me decepcionei, eu fui humana, se você viabilizou este processo em mim e não foi capaz de assumí-lo, você foi irresponsável.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Tempo, senhor da razão


             Se tem um jargão que eu estou acostumada a ouvir de avós, professores e pessoas de gerações um pouco mais distantes da minha é “vocês jovens não param com ninguém, é um tal de ficar com um aqui, ficar com outro ali...” e de tanto ouvir esse tipo de comentário comecei a me questionar: será que falta amor nessa minha geração tribalista “eu sou de ninguém, eu sou de todo mundo e todo mundo é meu também”?! E essa foi uma dúvida que permeou meus pensamentos por bastante tempo, que me vinha à cabeça em diversas situações e até mesmo me assustava quando via um amigo terminar o relacionamento com o “amor da vida” e dois meses depois encontrar um novo romance “eterno de 7 meses”.
              Foi quando percebi que não, não falta amor! Muito pelo contrário, às vezes sobra amor mas falta experiência. E quando eu digo experiência, não estou me referindo ao conhecimento sobre determinado assunto, mas sim àquela muito bem colocada por Walter Benjamin como sendo "aquilo que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. Não o que se passa, não o que acontece, ou o que toca. A cada dia se passam muitas coisas, porém, ao mesmo tempo, quase nada nos acontece.” E aí entendi o que há com a minha geração: muita coisa nos passa, pouca coisa nos acontece.
          As pessoas não formam laços, pouco se vinculam para além das redes sociais e acabam por não construir uma experiência coletiva não por serem piores do que as de antigamente ou desprovidas de amor, mas sim por falta de tempo e falta de tempo gera intolerância, afinal, se você não tem tempo a perder por que tentar entender o outro? Por que conviver com o defeito?
             É o tempo que permite construir a experiência, pois precisamos dele para nos modificar. Ao contrário, seremos espíritos cheios de vivências mas escassos de experiência. Um bom exemplo de como o tempo afeta a construção da experiência é quando fazemos uma viagem e ao voltarmos falamos: “Esse mês fora me fez amadurecer mais do que um ano aqui”. Amadurecer significa adquirir experiência, o que em uma viagem é totalmente possível por você estar desligado da vida real, ou seja, com tempo de viver e aberto às transformações. A vida real não nos dá tempo. Será que seriam necessárias 36 horas por dia para concretizarmos experiências ou elas às vezes nos passam silenciosamente? Fato que ela está escassa, mas tenho certeza de que ela ainda não foi extinguida, caso contrário, estaríamos andando para trás.
             Declaro guerra romântica ao vazio.
             Por uma vida que me permita ir a um museu e ter tempo para processar arte, ouvir uma música e ter tempo para decorar versos, amar e ter tempo para fazer poesia.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Notas sobre meu relicário


             Mais de um ano sem escrever aqui por muitos motivos, entre eles, a minha preocupação de não criar um alimentador de recalque, de viver olhando pra trás e não enxergar o presente que me cerca. Porém, de uns tempos pra cá, parei de ver este debruçar sobre o passado como uma fraqueza e comecei a percebê-lo como uma virtude. Virtude de quem é provido de subjetividade e que tem o discernimento de que olhar para o passado não se trata de lamentar o que já foi, mas sim de tentar entender o que se passa neste tempo que chamamos presente. É o aquilo sem nome, sem foco que move nossas vidas e que a psicanálise chamaria de “o desejo” e que eu defino como norteador das minhas escritas. Só quem tem um passado, uma narrativa, pode falar de presente.
            Cria-me um certo estranhamento ouvir algumas pessoas falarem: “Você tem que viver um dia após o outro sem olhar pra trás e sem pensar no amanhã. Viva o momento!” O que seria desta vida se a gente não pudesse olhar para a nossa história e desejar o que queremos pro futuro? Apesar de concordar que temos que estar conectados no que agora se passa, para mim, este pensamento nada mais é que uma tentativa de justificar a impulsividade (característica que muito me é familiar e me prejudicou incontáveis vezes)
Eu adianto que neste espaço você não vai encontrar o clichê “25 erros que você não deve cometer em um relacionamento” e, muito menos “como resolver sua vida amorosa em 17 passos”. Fujo deste maniqueísmo brega de categorizar pessoas entre bem e mal intencionadas, falsas ou verdadeiras, maduras ou não e é aí que vejo encanto nas coisas que escrevo. Não dou conselhos prontos, mas me questiono e , muitas vezes (outras também não), resoluções emergem destas perguntas que me faço. São questionamentos algumas vezes sem saída que depois de um tempo, quem sabe um ou dois anos, voltando a ler vejo que encontrei as respostas perdidas por aí, não em manuais mas em minha própria experiência, no meu próprio arquivo. E é por isso que eu carinhosamente chamo este espaço de relicário que guarda minha maior riqueza: os pensamentos do que me passa e me toca de alguma forma.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

ponto final, ponto final

   Hoje eu li uma frase que me fez pensar bastante:
 'Quando a história começa a ter vírgulas demais quer dizer que é hora de colocar um ponto final.'
   Quantas vezes na vida a gente se vê em uma história que não caminha, não anda pra frente, mas a gente não quer desistir por nada desse mundo. Muitas vezes, gostamos mesmo da pessoa, mas por outras, acabamos descobrindo que o que gostavamos mesmo era da condição, da sensação que aquela pessoa ou até mesmo aquela situação de insegurança nos trazia. Afinal, qual é a hora de colocar um ponto final? Quando essas vírgulas na história começam a nos fazer mal. Chega um momento que elas começam a nos fazer esquecer do real motivo que nos levou a querer que aquela história tivesse seu 'final feliz'. É como dizia o Skank: 'bem mais que o tempo que nós perdemos, ficou pra trás também o que nos juntou...'
   Quando você perde a lembrança do porquê você quis um dia que essa história desse tão certo é porque já passou da hora de ela ter um ponto final. Quando as coisas parecem complicadas demais, elas não só aparentam, elas são. E a verdade é que a única dimensão em que história complicada, cheia de idas e vindas e de desencontros vinga é na novela das oito.
    Me questionei. Será que um relacionamento têm um tempo certo pra acontecer? Sim. Chega um momento que a pessoa já teve tempo suficiente pra perceber se a sua presença faz a diferença e sua ausência incomoda. Quando perceber que ela já percebeu (mesmo que inconscientemente) isso? No momento em que você sente que as vírgulas estão começando a surgir, ou não. Se, de repente, você ver que só encontra essa pessoa quando ela está no caminho da sua casa e pode dar uma passadinha, ou até mesmo, se você sente que essa pessoa está feliz ao seu lado, mas feliz do mesmo jeito quando não está com você, é o momento de colocar um fim. Pois, não é nesse caminho que as coisas estão que isso vai vingar. É aquela coisa de quando é pra ser, é! E se você tem qualquer mínima dúvida de que é, já é um grande motivo para você rever a trajetória que este relacionamento está tomando.
   Se todos nós percebessemos isso a tempo de não nos decepcionar, conseguiriamos evitar muitas quedas de cara no chão, ou até mesmo, pouparíamos nosso tão precioso tempo de pessoas que nada tem à acrescentar na nossa existência, ou, se tem, não estão se importando em fazer essa diferença.










quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Existe


Uma das coisas que o mundo tem de melhor é, de fato, saber dar voltas, muitas delas. Enfim, eu estive pensando esses dias... E quando o mundo te permite voltar no tempo? É claro que não como nos sonhos de teletransporte, ou filmes do estilo Efeito Borboleta. Sabemos que o tempo promove mudanças às pessoas, aos espaços e situações, e que, como já dizia Heráclito, não podemos entrar duas vezes no mesmo rio. A vida tem dessas, nos recoloca frente a frente com pessoas que um dia já foram tudo para nós, e nos dá a chance de, dessa vez, fazermos diferente. O engraçado é que o sentimento por elas é imutável, mas todo o resto mudou. Então, eu me pergunto: como podemos nos redimir de um erro quando nada mais é igual ao que já foi?  Faz sentido, hoje, pedir desculpas e fazer diferente?
Se eu não sou quase mais nada do que eu fui no passado e você também não sabe reconhecer o que te sobrou daquele tempo, eu não acho que o sentido disso seja de retomada, e sim de recomeço. Exceto pelo fato do que sentimos, não nos conhecemos mais. Nos tornamos perfeitos estranhos um para o outro, com somente uma certeza: um dia nós entendemos o porque de gostarmos. E um recomeço implica em esquecer as desconfianças, as mágoas e os erros que ficaram para trás e estar aberto à conhecer um novo ‘outro’, que mais nos parece com uma sombra de lembrança do que com alguém que realmente conhecemos.
 Eu não tenho absoluta certeza se você gostará da nova pessoa que eu me tornei, mas uma coisa é certa: esse novo eu nunca cometeria os erros daquela época. Você sabe que eu não vou pedir desculpas...

domingo, 27 de novembro de 2011

Se libertar ou escravizar?

   Às vezes, há parte de nós que se alimenta de sombras. Sim, de sombras mesmo. De amargura, de um rancor desmedido do passado, de raiva por algumas pessoas, as mesmas que um dia já foram tão importantes para nós. Ou será que ainda são? E esse sentimento pelo que já ficou para trás acaba nos consumindo no agora, no presente. Andei me perguntando: o que é, realmente, se libertar do que passou?
   Percebi que se abrir para o novo não se trata apenas de seguir em frente, mas sim, de olhar para o passado com compreensão. Eu condeno e julgo pessoas que me magoaram, mas calma... Eu já magoei outras, também. Eu não gostaria que elas me condenassem. Na época, creio que tive algum motivo para fazer o que fiz e acabar as magoando. Pode ter sido um motivo um pouco egoísta, um pouco infantil, mas isso não faz de mim uma vilã, faz? Se todos têm o direito de errar e se eu parar para analisar, friamente, eu errei também (e feio), por que eu continuo condenando algumas pessoas?
   Longe de mim fazer isto parecer um belo de um moralismo. O que me traz aqui é a tentativa de entender o porquê de eu continuar me alimentando dessas sombras que ficaram, das marcas negativas que pessoas me deixaram. Não sou uma pessoa rancorosa e costumo ser relativa, também, no sentido de saber que toda a história possui três lados: o meu, o seu e a verdade concreta.
   É difícil, mas eu tenho que admitir que, bem no fundo, eu sei motivo de preservar esses rancores. É mais uma das minhas tentativas frustradas de me manter conectada à quem ficou pra trás, junto com os erros que cometeu e que me fizeram sofrer. É a minha forma de me prender, nem que seja pelo lado negativo, à certos sentimentos. Porque os sentimentos bons, por mais reais que sejam, começam a se diluir, seja com o tempo, seja com as sombras que insistimos em manipular.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Um Outro Nível de Vínculo

  Andei me questionando sobre o valor do tempo em nossa vida. As pessoas costumam dizer que ele cura tudo, que o tempo é o melhor remédio, ameniza as amarguras, faz a gente enxergar as coisas com mais clareza. Eu mesma já fiz isso. Temos o costume de colocar o tempo em um pedestal. quando não se tem mais nada para fazer em determinada situação, nenhuma solução, jogamos a bola para ele. Afinal, se eu não fui capaz de resolver, deixa pelo menos o tempo curar né...
  Mas, descobri também que não fazer nada e esperar que o tempo mude tudo não leva a lugar nenhum, as coisas ficam exatamente do jeito que eram, pelo menos para você mesmo. Perceber que esse tempo pode ser seu aliado, andando paralelamente às realizações que você buscar, é sim entender a cura que o tempo nos traz. É, acho que eu percebi que jogar o sucesso do nosso destino nas mãos de algo que é tão plural, incontínuo, irracional como o tempo é na verdade uma grande perda dele mesmo.
  A única coisa que para no tempo é o sentimento de saudades, mas acredito que ninguém queira viver só dela. O tempo não muda tudo se não estivermos dispostos a mudar com ele, e, principalmente, a se fazer mudar. E, quando fazemos isso, somos capazes de olhar para trás com a segurança de uma pessoa que foi amiga do tempo, soube usá-lo em seu favor e para seu próprio crescimento, entendendo os erros do passado, e os acertos também. E as pessoas que não aprendem com o tempo? Essas estão correndo dele e contra ele. Honestamente, não vale a pena. Eu já me aliei, não espere que ele te pegue pela mão e te leve para onde você deseja ir.

'Tempo tempo tempo tempo, entro num acordo contigo... Que sejas ainda mais vivo no som do meu estribilho... Tempo tempo tempo tempo, ouve bem o que te digo...'

domingo, 6 de novembro de 2011

Mentamorfoses

  Ontém, eu me deparei com uma citação de Joseph Campbell que sintetizou muitos pensamentos que andam parando sobre o meu pensar já há algum tempo. Mais uma de minhas epifanisses.
  'Você deve desistir da vida que planejou para ter a vida que o aguarda.'
  Às vezes, temos a sensação de que nada acontece na nossa vida, nenhuma novidade a move e, com isso, vamos desanimando frente às possibilidades que possam surgir eventualmente. Até que nos damos conta que, na verdade, as coisas que não acontecem não deixam de acontecer por mero destino, por imposição da própria vida, e sim porque não conseguimos olhar para as oportunidades que nos surgem por estarmos estreitamente vinculados com o que tinhamos planejado para nós mesmos. E, como sempre, temos duas saídas: ou nos mantemos frustrados no nosso planejamento que não deu certo, o que eu consideraria viver se alimentando de passado, ou nos libertamos para o desconhecido que nos aguarda. E nem sempre a melhor opção é a mais fácil de se realizar.
  Cada segundo que passa é como uma porta que se abre para deixar entrar o que ainda não sucedeu. Já dizia Saramago. É por isso que borboletas me encantam, seres quase mágicos que tem o dom natural de mudar e se libertar, dom este que talvez eu não possua assim, mas, com certeza, estou aprendendo. Hoje, onde a sua alma quer ir? Voltar ela não pode mais.




     

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Infinitamente belo, insuportavelmente efêmero

   Vejo a alma como um relicário, em que vamos guardando aquilo que se perdeu, que ficou para trás. Mas tenho percebido que não podemos viver só do nosso espírito colecionador de memórias que passaram. Viver é muito mais que sentir saudades do que já foi, creio que viver seja olhar para trás sim, mas como forma de tirar a essência das memórias. Como diz Rubem Alves 'não haverá borboletas se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses" - e essas metamorfoses assustam, muitas vezes são até mesmo impostas para nós pela vida, meio contra a nossa vontade. Eu descobri que temos opções frente a essas metamorfoses impostas, podemos ignorá-las e simplesmente mergulharmos em nosso relicário de lembranças do que já passou, ou podemos entrar no ritmo delas, nos deixando levar, mesmo sem saber para onde estamos voando.
    À primeira vista, ficarmos seguros em nossas memórias parece mais confortável do que abraçarmos o desconhecido. Foi isso que eu fiz, por um longo tempo. Até o dia em que você resolve dar uma breve espiadinha no presente, saindo por alguns instantes da caixa de lembranças seguras, e descobre que, provavelmente, suas lembranças tão bem guardadas viraram de ponta cabeça. Assusta, dá medo. E você vai, aos poucos, descobrindo o porquê de tudo parecer tão diferente daquilo que você ama. Ou amou? A verdade é que não parece diferente, realmente, está. O tempo muda tudo, as pessoas que você conhecia, mudam (nem sempre para o melhor). E você para e pensa: eu amo o que ou quem existe hoje, ou eu amo as lembranças que guardei? O único amor que fica, eterno, é o que a memória ama - este nenhuma decepção, por mais grande que seja, apaga.

domingo, 10 de abril de 2011

Meu mundo

  Ás vezes, eu me questiono se eu espero demais dos outros, se eu sou muito exigente com as pessoas que eu gosto. Acho que, quanto mais você gosta das pessoas, mais você espera delas. Eu espero sinceridade, acima de tudo. Eu me considero tão sincera com as pessoas, com todos... Honestidade acima de tudo, não há nada que, quando eu coloque minha cabeça no travesseiro, eu me arrependa de ter feito para alguém. Ultimamente, tenho prestado atenção nas idiotisses que eu cometo mesmo sem perceber, e procurado me redimir no mesmo momento em que eu faço a percepção de que não foi legal.
   Tudo bem, eu sou exagerada por natureza, mas acho que tem atitudes que eu nunca vou considerar normais, e acho que ninguém devia considerar, pois, se acontecem, é porque muita gente vê como natural. Promiscuidade é uma delas. Eu me assusto quando ouço 'fulano está namorando mas vive com várias..', esse despertencimento me assusta demais, as pessoas não devem ser apegadas umas as outras, mas essa história de 'ninguém é de ninguém' no meu mundo não tem o mínimo espaço. Se dar valor é tão importante, é, talvez, a chave da verdadeira felicidade. Saber que é feliz não por sorte, por momento, mas é feliz porque merece. Nunca foi minha intenção se colocar no centro do mundo, me achar qualquer coisa a mais que os outros, mas a minha diferença é que eu me dou valor, eu não me sujeito a banalidades. E hoje, eu percebo o quanto as pessoas que me conhecem, enxergam isso em mim. Essa sou eu e como eu vivo. Não deixo ninguém jogar um balde de pixe no meu mundo cor de rosa!