Epifanisses

Epifanisses

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Existe


Uma das coisas que o mundo tem de melhor é, de fato, saber dar voltas, muitas delas. Enfim, eu estive pensando esses dias... E quando o mundo te permite voltar no tempo? É claro que não como nos sonhos de teletransporte, ou filmes do estilo Efeito Borboleta. Sabemos que o tempo promove mudanças às pessoas, aos espaços e situações, e que, como já dizia Heráclito, não podemos entrar duas vezes no mesmo rio. A vida tem dessas, nos recoloca frente a frente com pessoas que um dia já foram tudo para nós, e nos dá a chance de, dessa vez, fazermos diferente. O engraçado é que o sentimento por elas é imutável, mas todo o resto mudou. Então, eu me pergunto: como podemos nos redimir de um erro quando nada mais é igual ao que já foi?  Faz sentido, hoje, pedir desculpas e fazer diferente?
Se eu não sou quase mais nada do que eu fui no passado e você também não sabe reconhecer o que te sobrou daquele tempo, eu não acho que o sentido disso seja de retomada, e sim de recomeço. Exceto pelo fato do que sentimos, não nos conhecemos mais. Nos tornamos perfeitos estranhos um para o outro, com somente uma certeza: um dia nós entendemos o porque de gostarmos. E um recomeço implica em esquecer as desconfianças, as mágoas e os erros que ficaram para trás e estar aberto à conhecer um novo ‘outro’, que mais nos parece com uma sombra de lembrança do que com alguém que realmente conhecemos.
 Eu não tenho absoluta certeza se você gostará da nova pessoa que eu me tornei, mas uma coisa é certa: esse novo eu nunca cometeria os erros daquela época. Você sabe que eu não vou pedir desculpas...

domingo, 27 de novembro de 2011

Se libertar ou escravizar?

   Às vezes, há parte de nós que se alimenta de sombras. Sim, de sombras mesmo. De amargura, de um rancor desmedido do passado, de raiva por algumas pessoas, as mesmas que um dia já foram tão importantes para nós. Ou será que ainda são? E esse sentimento pelo que já ficou para trás acaba nos consumindo no agora, no presente. Andei me perguntando: o que é, realmente, se libertar do que passou?
   Percebi que se abrir para o novo não se trata apenas de seguir em frente, mas sim, de olhar para o passado com compreensão. Eu condeno e julgo pessoas que me magoaram, mas calma... Eu já magoei outras, também. Eu não gostaria que elas me condenassem. Na época, creio que tive algum motivo para fazer o que fiz e acabar as magoando. Pode ter sido um motivo um pouco egoísta, um pouco infantil, mas isso não faz de mim uma vilã, faz? Se todos têm o direito de errar e se eu parar para analisar, friamente, eu errei também (e feio), por que eu continuo condenando algumas pessoas?
   Longe de mim fazer isto parecer um belo de um moralismo. O que me traz aqui é a tentativa de entender o porquê de eu continuar me alimentando dessas sombras que ficaram, das marcas negativas que pessoas me deixaram. Não sou uma pessoa rancorosa e costumo ser relativa, também, no sentido de saber que toda a história possui três lados: o meu, o seu e a verdade concreta.
   É difícil, mas eu tenho que admitir que, bem no fundo, eu sei motivo de preservar esses rancores. É mais uma das minhas tentativas frustradas de me manter conectada à quem ficou pra trás, junto com os erros que cometeu e que me fizeram sofrer. É a minha forma de me prender, nem que seja pelo lado negativo, à certos sentimentos. Porque os sentimentos bons, por mais reais que sejam, começam a se diluir, seja com o tempo, seja com as sombras que insistimos em manipular.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Um Outro Nível de Vínculo

  Andei me questionando sobre o valor do tempo em nossa vida. As pessoas costumam dizer que ele cura tudo, que o tempo é o melhor remédio, ameniza as amarguras, faz a gente enxergar as coisas com mais clareza. Eu mesma já fiz isso. Temos o costume de colocar o tempo em um pedestal. quando não se tem mais nada para fazer em determinada situação, nenhuma solução, jogamos a bola para ele. Afinal, se eu não fui capaz de resolver, deixa pelo menos o tempo curar né...
  Mas, descobri também que não fazer nada e esperar que o tempo mude tudo não leva a lugar nenhum, as coisas ficam exatamente do jeito que eram, pelo menos para você mesmo. Perceber que esse tempo pode ser seu aliado, andando paralelamente às realizações que você buscar, é sim entender a cura que o tempo nos traz. É, acho que eu percebi que jogar o sucesso do nosso destino nas mãos de algo que é tão plural, incontínuo, irracional como o tempo é na verdade uma grande perda dele mesmo.
  A única coisa que para no tempo é o sentimento de saudades, mas acredito que ninguém queira viver só dela. O tempo não muda tudo se não estivermos dispostos a mudar com ele, e, principalmente, a se fazer mudar. E, quando fazemos isso, somos capazes de olhar para trás com a segurança de uma pessoa que foi amiga do tempo, soube usá-lo em seu favor e para seu próprio crescimento, entendendo os erros do passado, e os acertos também. E as pessoas que não aprendem com o tempo? Essas estão correndo dele e contra ele. Honestamente, não vale a pena. Eu já me aliei, não espere que ele te pegue pela mão e te leve para onde você deseja ir.

'Tempo tempo tempo tempo, entro num acordo contigo... Que sejas ainda mais vivo no som do meu estribilho... Tempo tempo tempo tempo, ouve bem o que te digo...'

domingo, 6 de novembro de 2011

Mentamorfoses

  Ontém, eu me deparei com uma citação de Joseph Campbell que sintetizou muitos pensamentos que andam parando sobre o meu pensar já há algum tempo. Mais uma de minhas epifanisses.
  'Você deve desistir da vida que planejou para ter a vida que o aguarda.'
  Às vezes, temos a sensação de que nada acontece na nossa vida, nenhuma novidade a move e, com isso, vamos desanimando frente às possibilidades que possam surgir eventualmente. Até que nos damos conta que, na verdade, as coisas que não acontecem não deixam de acontecer por mero destino, por imposição da própria vida, e sim porque não conseguimos olhar para as oportunidades que nos surgem por estarmos estreitamente vinculados com o que tinhamos planejado para nós mesmos. E, como sempre, temos duas saídas: ou nos mantemos frustrados no nosso planejamento que não deu certo, o que eu consideraria viver se alimentando de passado, ou nos libertamos para o desconhecido que nos aguarda. E nem sempre a melhor opção é a mais fácil de se realizar.
  Cada segundo que passa é como uma porta que se abre para deixar entrar o que ainda não sucedeu. Já dizia Saramago. É por isso que borboletas me encantam, seres quase mágicos que tem o dom natural de mudar e se libertar, dom este que talvez eu não possua assim, mas, com certeza, estou aprendendo. Hoje, onde a sua alma quer ir? Voltar ela não pode mais.




     

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Infinitamente belo, insuportavelmente efêmero

   Vejo a alma como um relicário, em que vamos guardando aquilo que se perdeu, que ficou para trás. Mas tenho percebido que não podemos viver só do nosso espírito colecionador de memórias que passaram. Viver é muito mais que sentir saudades do que já foi, creio que viver seja olhar para trás sim, mas como forma de tirar a essência das memórias. Como diz Rubem Alves 'não haverá borboletas se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses" - e essas metamorfoses assustam, muitas vezes são até mesmo impostas para nós pela vida, meio contra a nossa vontade. Eu descobri que temos opções frente a essas metamorfoses impostas, podemos ignorá-las e simplesmente mergulharmos em nosso relicário de lembranças do que já passou, ou podemos entrar no ritmo delas, nos deixando levar, mesmo sem saber para onde estamos voando.
    À primeira vista, ficarmos seguros em nossas memórias parece mais confortável do que abraçarmos o desconhecido. Foi isso que eu fiz, por um longo tempo. Até o dia em que você resolve dar uma breve espiadinha no presente, saindo por alguns instantes da caixa de lembranças seguras, e descobre que, provavelmente, suas lembranças tão bem guardadas viraram de ponta cabeça. Assusta, dá medo. E você vai, aos poucos, descobrindo o porquê de tudo parecer tão diferente daquilo que você ama. Ou amou? A verdade é que não parece diferente, realmente, está. O tempo muda tudo, as pessoas que você conhecia, mudam (nem sempre para o melhor). E você para e pensa: eu amo o que ou quem existe hoje, ou eu amo as lembranças que guardei? O único amor que fica, eterno, é o que a memória ama - este nenhuma decepção, por mais grande que seja, apaga.

domingo, 10 de abril de 2011

Meu mundo

  Ás vezes, eu me questiono se eu espero demais dos outros, se eu sou muito exigente com as pessoas que eu gosto. Acho que, quanto mais você gosta das pessoas, mais você espera delas. Eu espero sinceridade, acima de tudo. Eu me considero tão sincera com as pessoas, com todos... Honestidade acima de tudo, não há nada que, quando eu coloque minha cabeça no travesseiro, eu me arrependa de ter feito para alguém. Ultimamente, tenho prestado atenção nas idiotisses que eu cometo mesmo sem perceber, e procurado me redimir no mesmo momento em que eu faço a percepção de que não foi legal.
   Tudo bem, eu sou exagerada por natureza, mas acho que tem atitudes que eu nunca vou considerar normais, e acho que ninguém devia considerar, pois, se acontecem, é porque muita gente vê como natural. Promiscuidade é uma delas. Eu me assusto quando ouço 'fulano está namorando mas vive com várias..', esse despertencimento me assusta demais, as pessoas não devem ser apegadas umas as outras, mas essa história de 'ninguém é de ninguém' no meu mundo não tem o mínimo espaço. Se dar valor é tão importante, é, talvez, a chave da verdadeira felicidade. Saber que é feliz não por sorte, por momento, mas é feliz porque merece. Nunca foi minha intenção se colocar no centro do mundo, me achar qualquer coisa a mais que os outros, mas a minha diferença é que eu me dou valor, eu não me sujeito a banalidades. E hoje, eu percebo o quanto as pessoas que me conhecem, enxergam isso em mim. Essa sou eu e como eu vivo. Não deixo ninguém jogar um balde de pixe no meu mundo cor de rosa!

terça-feira, 5 de abril de 2011

A outra

  Eu tenho estado tão metida nos meus livros e textos que acabo não conseguindo organizar meus pensamentos para fazer uma publicação decente. Mas essa semana eu li um conto do Borges, chamado 'O Outro', em que o autor encontra com ele mesmo 50 anos mais jovem e percebe a chave desse encontro: a mudança. Ele não se reconhece frente à ele mesmo bem mais jovem, passa a ser um estranho à ele mesmo. É como dizia Heráclito, um homem não pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois quando entrar nem o rio e nem o homem serão os mesmos. O tempo não passa, mas nós é que passamos com ele, e esse processo se dá de forma quase que mágica, não percebemos o quanto mudamos. 'A única constante é a mudança.'
  Me coloquei no lugar de Borges, tentando imaginar se fosse comigo, mas em um intervalo de tempo muito mais curto, a experiência é quase assustadora. É incrível como mudamos: nossos gostos, formas de ver o mundo, de pensar em nós mesmos e em nossas relações. Percebi o quanto a mudança é necessária e essencial para o nosso crescimento. Acho que aprendi a ser um pouco mais desapegada ao que já se passou e hoje já não me faz nenhum sentido, a não ser pela lição que deixou. E isso me trouxe um alívio...Seguir em frente, fazer diferente, ser uma nova pessoa, se renovar, principalmente, mantendo a essência dos seus sentimentos mais verdadeiros pelas pessoas. Mudar é preciso, a vida nos mostra o que é de verdade e o que é passageiro. Quem faz essa percepção de distinguir o que é verdadeiro do que é só uma passagem, é muito mais feliz, pois mantém ao seu lado só o que importa. O tempo nos mostra.